Um terço dos cursos de medicina falha em novo exame nacional

Cerca de um terço dos cursos de Medicina do País não atingiu desempenho proficiente na primeira edição do Enamed, exame que avalia a formação médica e substituiu o Enade na área. O balanço foi divulgado nesta segunda-feira (19) pelo Ministério da Educação (MEC), em Brasília.

Cerca de um terço dos cursos de Medicina ficou abaixo do nível proficiente no Enamed; MEC anuncia sanções e quer poder fiscalizar universidades municipais.

 

A prova é pontuada de 1 a 5, e notas 1 e 2 são consideradas não proficientes. Entre os 351 cursos avaliados, a distribuição foi a seguinte:

  • Conceito 1 – 7,1%
  • Conceito 2 – 23,6%
  • Conceito 3 – 22,7%
  • Conceito 4 – 33%
  • Conceito 5 – 13,6%

Ou seja, 30,7% dos cursos ficaram nos patamares mais baixos (1 e 2). O exame foi aplicado em universidades federais, estaduais, municipais, privadas com e sem fins lucrativos e instituições especiais.

Das 351 instituições avaliadas, 304 são reguladas pelo MEC (federais e privadas). Entre elas, 99 cursos poderão sofrer sanções por desempenho insuficiente:

  • 8 cursos terão o vestibular suspenso;
  • 13 cursos terão redução de 50% das vagas;
  • 33 cursos terão redução de 25% das vagas;
  • 45 cursos ficam proibidos de ampliar vagas.

Além disso, esses cursos terão suspensão do Fies e passarão por análise quanto à permanência em outros programas federais. As punições serão definidas de acordo com o percentual de estudantes proficientes em cursos com nota 1 e 2.

A Secretaria de Regulação e Supervisão da Educação Superior (Seres) vai abrir processos administrativos de supervisão. As instituições poderão recorrer, apresentar justificativas e propor melhorias. Se o MEC não aceitar os argumentos, as sanções seguem até o curso obter novo conceito no Enamed no ano seguinte.

Questionado sobre ações judiciais, o ministro da Educação, Camilo Santana, disse que recorrer à Justiça é um direito das instituições, mas defendeu a transparência do processo e o diálogo com o MEC.

“Todas as instituições vão ter o direito de se defender e apresentar suas justificativas. Queremos que as instituições corrijam o que tem de ser corrigido”, afirmou.

Considerando o tipo de instituição, as universidades municipais – que hoje não são supervisionadas pelo MEC – tiveram o pior desempenho no Enamed:

  • Municipais: 87,5% com notas 1 e 2
  • Privadas com fins lucrativos: 58,4% com notas 1 e 2
  • Especiais: 54,6% com notas 1 e 2
  • Privadas sem fins lucrativos: 33,3% com notas 1 e 2
  • Comunitárias/confessionais: 5,6% com notas 1 e 2
  • Federais: 5,1% com notas 1 e 2
  • Estaduais: 2,6% com notas 1 e 2

Diante do cenário, Camilo Santana anunciou que o governo vai enviar ao Congresso uma proposta para ampliar a atribuição do MEC, permitindo também a supervisão de universidades municipais. Ele terá reunião com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva para definir se a mudança virá por projeto de lei ou medida provisória.

O ministro demonstrou preocupação especial com o desempenho das instituições privadas com fins lucrativos, que concentram a maior parte das matrículas em Medicina.

“Não é caça às bruxas, punição de ninguém. É garantir que principalmente instituições que cobram do aluno, que cobram mensalidades caras, possam ofertar curso de qualidade nesse País”, disse.

O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, apoiou as medidas. Para ele, o Enamed oferece o melhor diagnóstico da formação médica hoje. “A formação médica é decisiva para um SUS de qualidade. Ter médicos bem formados, que seguem as novas diretrizes construídas pelo MEC e pelo Conselho Nacional de Educação, é muito importante.”

Além da análise por curso, o MEC divulgou o resultado individual dos concluintes. Entre os 39.258 estudantes avaliados, 67% tiveram desempenho considerado desejável, segundo a proficiência adotada pelo exame.

O dado indica que, apesar do grande número de cursos com notas baixas, a maioria dos futuros médicos alcançou o nível mínimo esperado na prova, o que será usado para compor o conceito dos cursos e orientar ações de supervisão.

Criado em abril do ano passado, o Enamed substituiu o Enade para os cursos de Medicina. A mudança ampliou o peso da avaliação: a prova passou de 40 para 100 questões e passou a ser aplicada a todos os concluintes da área.

A partir de 2026, o exame também será aplicado no 4º ano do curso, permitindo ao MEC acompanhar a formação ao longo do tempo, e não apenas ao final da graduação.

A Associação Nacional das Universidades Particulares (Anup) tentou barrar a divulgação dos resultados na Justiça, alegando, entre outros pontos, que a metodologia de cálculo foi definida após a aplicação e que poderia haver dano reputacional e material às instituições. A Justiça rejeitou o pedido, entendendo que a simples divulgação não implicaria sanções automáticas e que o risco apontado era “meramente hipotético”.

Com a divulgação dos dados e o anúncio de sanções, o Enamed se consolida como novo filtro de qualidade da formação médica no País e abre uma disputa entre governo, instituições privadas e universidades municipais em torno dos critérios de regulação e supervisão.

 

 

 

 

mec

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